Antigamente os hamsters eram mais dóceis

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É com alguma regularidade que somos abordados por novos tutores de hamsters que procuram dicas e aconselhamento, e muitas vezes são pessoas que na sua infância já tinham tido hamsters e agora na idade adulta procuraram trazer um bichinho desta espécie para a família, às vezes até para partilhar esta vivência com os seus filhos ou esposos.

Quando é o caso que a pessoa fez a sua pesquisa sobre os cuidados da espécie, apercebe-se da quantidade de informação que agora, 15 ou 20 anos depois, há disponível. É como cair na toca do coelho. De repente já não se recomendam gaiolas apertadas com grades e túneis de plástico, e agora há um mundo de terrários, enriquecimento ambiental, acessórios, rodinhas que não causam escoliose e dor crónica nos bichinhos e alimentos formulados para serem saudáveis e equilibrados.

Ao longo dos últimos 10 anos houve de facto um grande movimento a promover o bem-estar destes roedores, e a vê-los como mais do que um acessório barato, como vidas. E foi também assim, com alojamentos virados para o bem-estar dos animais, que muitas pessoas começaram a descobrir como é realmente a personalidade natural de um hamster, quando este não está uma pilha de stress. E o comportamento natural de um hamster é ser um animal fossorial e noturno. Ou seja, é ficar enterrado o dia todo, e sair à superfície apenas de noite para pegar comida, correr na sua rodinha, e voltar a enterrar-se.

Mas de onde vem esta ideia de que antigamente os hamsters eram mais dóceis?

Primeiro há o factor nostalgia. As memórias de quando somos crianças têm sempre um tom mais de fantasia do que de realismo, e muitos pormenores concretos são substituídos pela saudade de um tempo mais simples, com menos responsabilidades e com uma felicidade menos complexa mais natural.

Mas não é só isso.
Muitas pessoas nos descrevem como os seus hamsters eram dóceis. Gostavam de andar no colo. Muitas pessoas até descrevem que eles esperavam por elas chegarem a casa da escola, e metiam-se com as suas patinhas e o seu focinho doce encostado nas grades da gaiola à espera de uma guloseima.

Ok, algo mais ou menos assim?

Porque isto não é um hamster dócil. Apesar de que se metermos a mão dentro da gaiola, se calhar ele não vai fugir, mais por não ter para onde fugir do que por querer o nosso toque. Esta imagem é uma imagem de um hamster em stress.
Roer grades, ou só o facto de segurar as grades e fixar no vazio, é um comportamento estereotipado de stress.
Correr em círculos? igual.
Pendurar-se no topo da gaiola como um pequeno macaco? Stress também.
Subir para cima da nossa mão mal abrimos a gaiola? Se a gaiola for como a da foto é sim stress e aborrecimento.
Aceitar carinho? Se não há alternativa o animal acaba por se habituar, mas e se tiver escolha?

Muitas das coisas que estamos habituados a achar que é um hamster a ser fofinho é na verdade um hamster super stressado. A maioria dos hamster em cativeiro vive com níveis de stress elevado cronicamente! Afinal de contas, os hamsters são animais selvagens que na natureza percorrem quilómetros e quilómetros todas as noites para recolher alimento e material para o seu ninho. Então é claro que quando providenciamos as condições para o hamster ter escolha, quando lhe damos espaço, enriquecimento, e preparamos um alojamento que não é uma tortura, vamos ver o nosso hamster menos vezes.
Mas não é por ele ser menos dócil, é porque tem a oportunidade de ser quem ele realmente é: Um roedor noturno, solitário e independente.

ABECO – Associação Bichos Exóticos e Companhia

A ABECO é uma associação de protecção animal, sem fins lucrativos, que resgata e reabilita pequenos animais exóticos. Desde 2022 já mudou a vida de mais de 600 animais de 20 espécies distintas. Segue o nosso trabalho nas nossas redes sociais e apoia-nos para salvarmos a vida a mais bichinhos!

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